Jardim de chuva


O jardim de chuva talvez seja a mais simples solução de infraestrutura verde, que pode ser aplicada tanto no âmbito residencial (acolhendo a água de telhados, pátios e passeios) como urbano (em jardins junto às calçadas). Consiste num canteiro com plantas, formado com o rebaixamento do solo, que coletará as águas pluviais através de aberturas delimitadas em seu contorno. Esse solo deve ser tratado para se tornar mais poroso (por exemplo, através da adição de areia em sua composição) de forma a agir, segundo Cornier e Pellegrino (2008, p129.) “[…] como uma esponja a sugar a água, enquanto microrganismos e bactérias no solo removem os poluentes difusos trazidos pelo escoamento superficial. Adicionando-se plantas, aumenta-se a evapotranspiração e a remoção dos poluentes.”. Após a chuva a água não deve ficar muitas horas acumulada em sua superfície para não prejudicar as espécies vegetais que, devem suportar o solo encharcado porém, não serão plantas aquáticas.

Uma análise do tipo de solo se faz necessária e irá ditar se a água poderá infiltrar no subsolo (solos argilosos, já estão saturados de água e a infiltração não será possível). Caso a condição geológica permita, o jardim de chuva atua como uma bacia de infiltração de parte do volume das águas pluviais, aliviando o sistema convencional de drenagem. O sistema deve prever um extravasor de nível, para desviar a água excedente para o sistema convencional. Além disso, o escoamento da água por entre as plantas, pedras e outros elementos que possam fazer parte do canteiro, retêm partículas em suspensão assim como permite a absorção de poluentes, pela capacidade filtrante das plantas, devolvendo então a água mais limpa para o sistema. Visto a “primeira água da chuva” ser a mais suja (poluição difusa do escoamento superficial), já que atua lavando as superfícies com que entra em contato, o benefício ambiental que o jardim de chuva oferece é relevante.

Esteticamente, o jardim de chuva é muito versátil já que pode ter dimensões variáveis assim como, assumir as mais diversas formas, sendo facilmente integrado ao projeto arquitetônico e urbanístico. Quando implantado em calçadas, contribui para o embelezamento viário e sensação de bem-estar para os usuários daquela via.

A cidade de Portland, nos Estados Unidos, tem diversas soluções de infraestrutura verde implantadas em sua malha urbana. Em 2005 a SW 12th Avenue passou por uma reformulação e ganhou quatro jardins de chuva com o investimento de aproximadamente trinta mil dólares. Isso mostra que é possível implantar essa tipologia com um baixo custo, mesmo em áreas urbanas já consolidadas.

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Cada canteiro mede cerca de cinco metros e meio de comprimento por um metro e vinte de largura sendo rodeado por uma guia de quinze centímetros de altura, formando individualmente uma área ajardinada de quase sete metros quadrados. A profundidade do canteiro é cerca de trinta centímetros abaixo da cota de nível do meio fio sendo que, o nível máximo de armazenamento de água chega a quinze centímetros. Foi utilizada uma mistura de areia, terra vegetal e adubo na camada superficial do solo destinada ao plantio.

Conforme pode-se observar na figura 5, a calçada ficou dividida em três setores:

– faixa de circulação de pedestres

– área dos canteiros

– faixa para circulação da água e acesso dos pedestres.

Neste sistema, a água entra no primeiro jardim (o trecho de entrada das águas é de concreto de modo a dissipar o fluxo, coletar sedimentos e detritos assim como, facilitar a posterior limpeza) através de um recortes feitos na guia tanto na face do canteiro que ladeia o meio fio (formando uma calha), como na face voltada para o passeio de pedestres que tem inclinação voltada para o canteiro (contribuindo também para a drenagem da água na calçada). Uma grelha metálica tampa essa calha que se forma na faixa da calçada destinada à condução das águas. Entre essas grelhas foram dispostas passagens que cortam os canteiros e possibilitam o acesso dos pedestres. Ao alcançar a capacidade máxima (nível dos quinze centímetros) a água extravasa novamente para a rua, através da calha tampada com a grelha metálica (situadas na extremidade de cada canteiro) e alcança o segundo canteiro. Assim vai, de acordo com a intensidade da chuva, inundando cada jardim. Ao atingir o último, a água é conduzida para o bueiro existente.

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As espécies especificadas (Juncus patens e Nissa sylvatica) apresentam a característica de serem tolerantes tanto ao solo seco, como bastante irrigado. A Juncus patens foi plantada após a faixa de concreto, junto à entrada de água de cada canteiro, detendo assim, os detritos em sua estrutura rígida assim como retardando a passagem da água.

Neste caso, a situação geológica permite a absorção da água que, segundo medições, infiltra numa taxa de quatro polegadas por hora (cerca de dez centímetros por hora). Medições indicam que o sistema consegue gerir os cento e oitenta mil litros do escoamento anual da SW 12th Avenue. Foi realizado também um teste de fluxo que demonstrou que os jardins de chuva tem a capacidade de reduzir a intensidade do escoamento de uma chuva de 25 anos em pelo menos setenta por cento.

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Com esses dados, consta-se então a eficácia dessa tipologia que tem potencial de ser inserida na paisagem urbana com um baixo custo de implantação, trazendo diversos benefícios à cidade.

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Outro exemplo pode ser visto na cidade da Philadelphia, que em 2001 investiu no programa “Cidade verde e águas limpas” e aplicou diversas soluções de infraestrutura verde (telhados verdes, cisternas, pavimentação porosa) incluindo a inserção de jardins de chuva na malha urbana.

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Áreas de estacionamento também tem grande potencial para implantação de jardins de chuva. Entre as filas de vagas foram projetados jardins de chuva que oferecem o atrativo de uma área ajardinada além de permitirem a infiltração da água por conta do solo preparado com camadas de geotêxtil e cascalho.

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Uma outra configuração do jardim de chuva pode ser observada na Biblioteca Maple Valley, em Washington, projeto do escritório Cutler Anderson Architects. Alguns autores consideram essa situação como “canteiro pluvial”, que se resume a um jardim de chuva compacto.

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Neste caso, o projeto de arquitetura levou em conta a inserção da infraestrutura verde desde a sua concepção, optando por uma cobertura em formato de “u”, que conduz toda a água pluvial numa calha única que desagua no pátio central. Este pátio funciona como uma grande bacia de infiltração, chamado por Anderson de “piscina de cascalho”. As bordas dessa “piscina” são serrilhadas para reter detritos de matéria orgânica.

Como síntese de análise, temos então o jardim de chuva como uma bacia de infiltração de águas pluviais que contribui comprovadamente para o controle de enchentes e purificação da água à ser infiltrada no solo, assim como, filtragem da quantidade excedente que será devolvida ao sistema.

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